Republicamos, com consentimento do autor e do jornal, um artigo do lexicólogo e professor de Traduçom da Universidade de Vigo, Carlos Garrido, aparecido no último 18 de outubro em Nós Diário. O engenhoso paralelo linguístico com campo científico da agronomia seria bem do agrado de Ricardo Carvalho Calero, que utilizou alegorias semelhantes nos seus artigos de denúncia e divulgaçom. Recordemos as "ordenanças municipais que regem os movimentos de tráfico rodado ou o horário de depósito e recolhida de detritos domésticos polo serviço de limpeza", com que abria "Política linguística: memórias de um esquelete", publicado em La Voz de Galicia no 12/021988, p. 23.

O lysenkoismo do galego
Carlos Garrido, lexicólogo e professor de Traduçom da Universidade de Vigo.
Trofim Lysenko (1898-1976) foi um engenheiro-agrónomo que convenceu os dirigentes da Uniom Soviética da factualidade e proveito de umha teoria biológica disparatada, vinculada ao materialismo dialético e de natureza pseudocientífica, a da transmissom hereditária de carateres adquiridos pretensamente aplicável à obtençom de novas espécies de plantas agrícolas. Com o favor do poder político, e nomeadamente de Stalin, Lysenko alcandorou-se na direçom do Instituto de Genética da Academia das Ciências da Uniom Soviética e conseguiu impor no país a sua fraudulenta teoria, negadora dos princípios fundamentais da genética, o que impediu durante decénios o desenvolvimento da investigaçom biológica soviética e agravou a escassez de alimentos e a fame das massas camponesas. O lysenkoismo, tornado doutrina oficial do regime, também acarretou o despedimento de mais de 3000 cientistas e numerosos biólogos fôrom encarcerados ou executados no quadro de umha campanha destinada a erradicar os oponentes científicos.
Salvando as distáncias sociopolíticas, pode dizer-se que som vários os pontos-chave que a teoria lingüística do Instituto da Lingua Galega (ILG) apresenta em comum com o lysenkoismo: aquela, concebida no franquismo e, desde 1982, de maos dadas com a RAG, tornada doutrina oficial única polo poder político autonómico, representa umha rutura radical com a tradiçom galeguista (do Pe. Feijó a Castelao e Cunqueiro) e com a conceçom clássica da filologia románica, que reconhecem a unidade lingüística galego-portuguesa e sugerem vias para a reintegraçom do galego no seu tronco idiomático; além disso, a oficializaçom da doutrina do ILG tem sido acompanhada da perseguiçom laboral de docentes e da censura e exclusom absolutas dos intelectuais reintegracionistas; por último, e o mais importante, a doutrina do ILG também tem acarretado conseqüências catastróficas: nos últimos 40 anos, ela tem-se revelado corresponsável polo drástico declínio do galego, que hoje coloca a língua autóctone da Galiza à beira da extinçom social.
No manual Galego 3, de 1974, fica patente a essência da teoria do ILG (p. 82): «[…] non convén esquencer que en Galicia síntese [sic] desde hai moito a influencia do adstrato castelán, que ven operando como lingua de cultura na nosa terra. Esto provocóu que o galego popular se fixera [sic] permeable a certas innovacións irreversibles que contribuiron aínda máis á diverxencia entre as polas [sic] galega e portuguesa. Pra sermos, xa que logo, consecuentes co noso principio de non xebrar [sic] escesivamente o galego culto do popular (de xeito que aquel non sexa letra morta prós galegos), témonos que pronunciar contra a portuguesización do galego». Trata-se, portanto, de umha doutrina que, por um lado, concebe o galego, de forma antinatural, contra a pura evidência, como língua diferente do português, e, por outro, que renuncia a umha cabal regeneraçom do idioma. Além de restringir notavelmente a regeneraçom morfossintática e lexical do galego e de consagrar o castelhano como fonte quase exclusiva dos neologismos, a segregaçom do português praticada polo ILG inclui impor ao nosso idioma a ortografia castelhana. Fica, assim, claramente delineado um programa suicida (lingüicida) para o galego, de incapacitante subalternidade. A imposiçom ao galego da ortografia castelhana (niño e nom ninho) nom é simples questom técnica, porquanto a ela se associa umha dimensom ontológica (o galego é afim ao castelhano, enquanto o português é língua estrangeira) e umha dimensom axiológica (o galego, subalterno em relaçom ao castelhano, tem pouco valor e utilidade).
Nessas coordenadas programáticas do ILG, durante os últimos 40 anos, o galego —na realidade, um verdadeiro cisne, umha das variedades da pluricontinental língua galego-portuguesa— tem sido apresentado à sociedade como patinho feio, como idioma regional menor, isolado e circunscrito a quatro províncias espanholas, destituído dos usos e recursos de umha moderna língua de cultura e formal e funcionalmente subordinado ao castelhano, potentíssima língua de Estado de projeçom internacional, com a qual o galego tem tido de concorrer em lastimosa desvantagem. O necessário desfecho de tal desigual concorrência era previsível há 40 anos e agora está próximo de se consumar.
A monstruosa fraude do ILG, a de apresentar e tratar o galego como patinho feio, tem sido apoiada, por interesse ou cegueira, polo nacionalismo espanhol, polo regionalismo galego e, mesmo, paradoxalmente, por círculos que se reclamam nacionalistas galegos. O lysenkoismo prolongou-se durante 20 anos, até se tornar evidente o seu fracasso absoluto. Nom serám já suficientes 40 anos e o atual estado calamitoso do galego para repudiarmos o suicida programa do ILG?
Garrido, Carlos (2025) - O lysenkoismo do galego [Em linha]. [18 de outubro de 2025]. Disponível em WWW: <URL: https://www.nosdiario.gal/articulo/lingua/lysenkoismo-do-galego/20251017211113237045.html>. [PDF]