(Universidade de Santiago de Compostela, 23 de setembro de 2025)
José-Martinho Montero Santalha
“Saúdo toda esta familia”.
Assim começa uma peça teatral de Carvalho Calero, a Farsa das çocas. É o saúdo com que se apresenta ao público uma das personagens da obra, Edelmira de Cornido: “Minhas donas e meus senhores: boas noites. Som Edelmira de Cornido. Saúdo toda esta família. Que estejam bem. Por muitos anos”.
O substantivo família tem aí o sentido popular que já o dicionário galego de Leandro Carré desde a sua primeira edição em 1928 lhe atribuía, para além do significado mais comum: o mais extenso de “Gente, muchedumbre”. E o dicionário de Eládio Rodríguez explicava mais amplamente: “En abstracto, suele muchas veces tomarse por xente; y así se dice: houbo moita familia na feira, na festa, etc., por hubo mucha gente”.
É o mesmo sentido que achamos no título do fermoso e famoso livro de Álvaro Cunqueiro Merlim e família, onde tem o significado, nas suas próprias palavras, de “toda aquela troupada profana que a Merlim acudia e aos seus sete saberes”.
Nesta circunstância essa saudação a “toda esta família” que tomamos da Farsa das çocas como dirigida a todos os presentes, serve-nos, ademais, de excelente meio de manifestar à família aqui presente do professor Carvalho Calero, e nomeadamente à sua filha Maria Victória, o afecto que, estou seguro, não é só dos organizadores deste ato mas de todos os presentes.
Lembramos o nome e a figura de Ricardo Carvalho Calero, mais uma vez –e sempre será pouco…–. Efectivamente, há muitos motivos para isso.
Antes de mais, devemos lembrar de Carvalho a integridade pessoal que dirigiu o seu comportamento ao longo de toda a sua vida. Para quantos tivemos o privilégio de tratá-lo de perto, a impressão mais forte que dele nos ficou foi a de um espírito de ideias elevadas, generoso, incapaz de vinganças ou de rancores.
Se olharmos na biografia de Carvalho, descobriremos que recebeu algumas afrentas de diversas pessoas, como calúnias, faltas de respeito e marginalização. Mas Carvalho sofreu resignadamente todos os ataques, todas as incomprensões e injustiças, e a própria marginalização do galeguismo oficial, não só sem pretender devolver a ofensa, mas esquecendo-a. A sua norma de vida era o esquecimento das injúrias, e bom símbolo dessa atitude é um poema seu intitulado justamente «Esqueço», em que louva a força regeneradora que tem o esquecimento da maldade alheia, “como um orvalho de paz, / […] / que penetra o coração / e tira dele a desdita. / […] E a nossa alma fica enxebre, / como se nunca soubesse / por onde se vai ao mal”.
Da atitude generosa de Carvalho temos provas também nos seus estudos literários. Aduzirei uma amostra significativa. Quando elaborou para a sua Historia da Literatura Galega contemporánea o estudo do poeta Noriega Varela, Otero Pedraio (que conhecera e tratara muito Noriega quando este exercia a sua profissão de mestre de ensino primário por terras ourensanas) enviou-lhe um longo escrito em que traçava um retrato da personalidade de Noriega. Carvalho reproduziu esse texto na sua Historia, mas suprimindo, com advertência para o leitor, os pormenores privados que podiam resultar negativos para a figura de Noriega.
Desde os tempos da sua infância Carvalho Calero sonhava com ser um grande poeta. Na realidade, creio que podemos dizer que esse foi sempre o seu anseio mais profundo, e, de facto, este foi quantitativamente o género literário que mais cultivou. Também o teatro suscitou desde cedo a sua adesão, e a sua produção dramática oferece traços originais como teatro de ideias, e, no terreno humorístico, conseguiu êxito popular –nomeadamente escolar– com a já aludida peça cómica Farsa das çocas.
A sua mocidade moveu-se entre a vocação literária e o compromisso político com o Partido Galeguista. Emociona constatar, nos anos da Segunda República, a sua entrega incansável a múltiplas atividades dirigidas a apoiar e difundir a cultura da Galiza e a sua língua.
Nos tempos da sua madurez, durante os anos 60 e 70, Carvalho gozou de uma fama incontestável e incontestada, mormente dentro da Galiza, mas também fora.
Nos últimos anos 70 e nos primeiros 80, superada já a ditadura franquista, as previsões para a língua da Galiza começavam a anunciar uma catástrofe: a língua ia caminho de desparecer. Todos os indícios eram alarmantes: o domínio cada vez mais premente do castelhano na vida pública galega (com um novo instrumento tão eficaz como é a televisão), a emigração do mundo rural ao urbano, a ruptura na transmissão generacional… A situação da língua debuxava-se tão precária que já não seria suficiente o apoio oficial e institucional, com ser obviamente fundamental. Carvalho comparava a situação da língua com a de uma anciã que agoniza entre o carinho dos seus e com a protecção da Seguridade Social…
Carvalho Calero foi, pois, um dos visionários (com Paz Andrade, Guerra da Cal e outros) que anunciaram com muita antelação o que hoje comprovamos dolorosamente com mais evidência: que o rumo que leva a cultura galega dirige-se a um precipício fatal. E não se cansou de repetir e argumentar que a cultura galega tinha que mudar de rumo, e que a única possibilidade de salvação para a língua era a plena reintegração na comunidade lusófona.
Observando como em visão panorámica toda a obra que Carvalho nos legou, algo que chama a atenção é o carinho com que estudou e analisou a Literatura Galega.
Quando apareceu a sua Historia da Literatura Galega contemporánea, o livro produziu em muitos de nós um íntimo orgulho de país: foi um gozoso descobrimento constatar que a nossa língua desprezada conseguisse, no limitado período dos 125 anos estudados na obra (de 1810 a 1936 aproximadamente), uma produção cujo estudo pormenorizado era capaz de constituir um grosso volume de 900 páginas. E é que Carvalho Calero esforçou-se por rastrear, documentar e recolher com imenso carinho, como se recolhem as florinhas disseminadas pelo campo, as mais escondidas peças literárias galegas, muitas delas ocultas em publicações minoritárias e efémeras. Carvalho abordou a literatura galega com a simpatia com que se aborda uma grande literatura, e só assim pudemos calibrar a dimensão de figuras como Rosalia, Curros, Pondal, Noriega, Cabanilhas, Castelao, Cunqueiro…
Quando faleceu, em 1990, Carvalho deixou por toda a Galiza uma longa massa de fiéis admiradores, que de diversos modos reivindicaram repetidamente a sua honra e lhe renderam homenagem, incluído um monumento com o seu busto diante da que fora a sua casa em Compostela. Em boa medida, foram essas homenagens as que conseguiram que a Real Academia Galega lhe dedicasse finalmente o Dia das Letras Galegas, no ano 2020, após longa resistência. Infelizmente esse ano veio a coincidir com a pandemia do coronavírus, o que restou eficácia à comemoração.
O tempo passa inexoravelmente e tudo devora. Agora, 35 anos depois do seu falecimento, o nome de Carvalho Calero vai apagando-se também na nossa sociedade. Mas para os que saibam escrutar as ensinanças da história, ficará sempre o seu exemplo vital e o fruto do seu abnegado e inteligente labor de investigador rigoroso da nossa literatura.
É um acontecimento feliz que uma «Cátedra Carvalho Calero» se proponha como missão inspiradora recordar a figura do catedrático Ricardo Carvalho Calero e prosseguir os seus trabalhos e anseios na que foi a sua Universidade. Todos os que nos sentimos discípulos de Carvalho celebramos com alegria esta iniciativa e aderimo-nos a ela com entusiasmo, desejando-lhe a melhor fortuna.
Este discurso foi proferido no primeiro ato público da Cátedra oficial Carvalho Calero, (CCC) realizado no 23 de setembro de 2025 no Paraninfo da Universidade de Santiago.