Eliseu Zua Cateco em entrevista

Dezembro 19, 2025 // Cristina P. Amigo

por Cristina P. Amigo

[Já foi avançada notícia nesta página de como o primeiro Prémio de Investigação desta Cátedra Carvalho Calero, na modalidade Trabalho de Fim de Grau, foi para Luanda. O seu autor observou e analisou as variantes de português no processo de interação entre estudantes do campus compostelano, coincidindo com a sua própria experiência de intercâmbio durante o curso académico anterior na USC. Oferecemos agora as palavras do premiado, por via de entrevista colocada por Cristina Pérez Amigo, outra estudante que leu esse TFG e segue matérias como as cursadas pelo autor.]

O Eliseu na Avenida 1° Maio, Luanda, onde foi proclamada a independência de Angola pelo primeiro presidente Dr. António Agostinho Neto, na imagem com o braço erguido.

Eliseu Zua Cateco é um rapaz angolano que veio para a Galiza no curso académico 2024-2025, ao amparo do programa de mobilidade Erasmus. Ele cursou durante um ano os seus estudos na Faculdade de Filologia da USC e a sua interação com alunos procedentes de diversas geografias e culturas lusófonas inspirou o tema do seu TFG, MODO DE INTERAÇÃO E COMPREENSÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA MEDIANTE AS VARIANTES LINGUÍSTICAS NA USC GALIZA: O caso dos estudantes lusófonos. O seu trabalho acaba de ser distinguido com o Prémio CarValho, da recentemente inaugurada Cátedra Carvalho Calero, na modalidade de investigação.

Achei muito interessante a parte do trabalho na que comparas as visões da gente sobre a Galiza antes e depois do Erasmus. Qual era a perspetiva que tu tinhas antes de vir para a Galiza? Ficou alterada?

Antes de viajar para a Galiza, eu tinha a visão que todo e qualquer jovem africano tem. Quando toma conhecimento de que vai para a Europa, imagina um paraíso, um lugar onde tudo é belo, sem muitas dificuldades sociais, vida acessível, paisagens lindas, facilidade nos serviços e uma vida acessível. Temos aquela visão de que é um lugar onde as coisas são bem diferentes em relação à nossa realidade, principalmente as questões sociais, as questões de acessibilidade e também aquilo que tem a ver com a estrutura social da própria cidade.

Daí então, que eu olhava para a Galiza como sendo aquele lugar onde eu poderia encontrar as oportunidades que são difíceis em Angola, ligadas ao lazer, à qualidade de vida, à saúde e à própria educação. Daí então que quando cheguei na Galiza encontro um pouco de tudo do que pairava em minha mente, sobretudo a qualidade do ar, algo bastante interessante. Depois da própria estrutura da cidade, as lindas paisagens que a própria cidade oferece, senti-me realizado ao ver-me na Europa, ou seja, num lugar onde era totalmente diferente da minha realidade.

O que achaste mais inesperado ao chegar aqui? Do que gostaste mais?

–Precisamente o que eu achei mais inesperado é a questão que tem a ver com a hospitalidade das pessoas. Temos a impressão de que na Europa principalmente (por ser negro) há aquele sentimento de um certo complexo entre as pessoas brancas. Eu imaginava que chegaria na Galiza e encontraria dificuldade com certos complexos das pessoas nacionais, a dificuldade na interação. Coisa que foi totalmente diferente. Outro caso inesperado foi com os preços dos alimentos, o modo como as pessoas são hospitaleiros, as zonas turísticas.

Das coisas que mais gostei, a própria catedral de Santiago de Compostela está entre elas, um monumento maravilhoso, que foi uma das primeiras coisas que chamou minha atenção ao chegar na Galiza porque a via apenas pelos vídeos. Quando chego aqui e contemplo, uau!! consigo encontrar a realidade daquilo que via simplesmente nos vídeos.

Um aspeto importante nisto tudo foi o ambiente académico. Este foi dos elementos que me deixou apaixonado por Galiza. O cenário me deixou encantado e de certa forma tão feliz ao encontrar as condições académicas das quais eu careço em Angola. Principalmente as bibliotecas. Em Angola temos uma carência muito grande nas questões bibliográficas. Poucas são as bibliotecas e bibliografias quando nos lançamos nas pesquisas, mas na Galiza eu encontrei este espaço e oferta. Na Galiza, o que tu não encontras nas prateleiras da biblioteca, encontras em formato digital. E depois, é a questão da oportunidade em receber o empréstimo dos materiais de investigação. Tu podes levar emprestado o livro da biblioteca por um tempo estabelecido. Os livros têm muitas outras edições e reproduções. Ou seja, são livros que se eu levar para casa, a própria biblioteca ainda tem disponível outros. Realidade que é muito diferente de Angola.

Então o ambiente académico foi das coisas que eu mais gostei. Eu me senti no lugar certo quando cheguei na Galiza e encontrei este mundo académico que eu sempre tinha almejado. Por essa razão é que eu passei mais tempo na biblioteca, mais tempo na faculdade.

Percebeste racismo por parte dos estudantes galegos?

–Eu diria que senti um pouco. Tudo porque ainda é possível notar algum certo racismo por alguns colegas, por alguns estudantes na Galiza. Por sermos negros, eu, em particular senti porque fui muito interativo com os colegas de diferentes países. Também por já ter ido à Galiza com um pouco de noção do espanhol eu consegui integrar com muita facilidade e neste processo em alguns momentos senti certo preconceito e racismo. Mas assim, categoricamente, dizendo numa percentagem de 100, eu diria que senti por ali uns 7 ou 8%.

A realidade foi muito diferente quando entrevistei os outros colegas africanos. Eu me senti na pele deles. Os colegas que participaram na minha entrevista, quando eu coloquei a questão do racismo, alguns até acabaram chorando dando seu testemunho. Contaram-me a experiência de que quando chegaram à sala de aula, nos seus primeiros dias e até mesmo ao término da mobilidade, quando sentavam no meio dos colegas espanhóis, galegos e outros, eles afastavam-se deles. Ou seja, o colega africano sentava sozinho e os outros de outras nacionalidades se afastavam, muitos deles até mesmo galegos, ausentavam-se de qualquer contacto. Então, isso de certa forma levou muitos deles a sentirem-se muito mal e alguns até com vontade de não mais querer ir à faculdade por conta dessa situação de racismo.

Não foi o meu caso, por eu ser pessoa muito interativa e também saindo já com uma lição muito estudada daqui, de que eu vou para cumprir o meu objetivo, independentemente da situação que lá encontrar, eu tenho que esbarrar com tudo e simplesmente focar-me naquilo que me compete, naquilo que me levou, que é necessariamente passar por cima e enfrentar todas essas situações que eu poderia encontrar.

O teu TFG, para além de ser um trabalho de campo, com o tempo e as dificuldades que isso implica, é um trabalho muito completo. Quanto tempo tiveste que dedicar a esta investigação? Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas?

–A investigação… Uma coisa curiosa, é que o tema em si surgiu-me no período da mobilidade. Quando tomei conhecimento que iria para Faculdade de Filologia, começou a surgir em mim esse bicho de tentar perceber a língua que falamos por meio da imaginação sociológica e, isto consolida-se mais no Welcome Day, que é as notas de boas-vindas dadas aos estudantes de mobilidade Erasmus, encontrei-me com os outros colegas da lusofonia. Enquanto conversávamos, eu percebia que falávamos o português, mas cada um tinha a sua variante.

Daí então, o bichinho já corroendo sobre a minha cabeça, decidi falar sobre isto. E em novembro, foi quando eu comecei necessariamente a meter a mão na massa, tudo porque ali tive o aval de que eu poderia necessariamente fazer a minha pesquisa lá na faculdade, com o tema em causa. O meu orientador, o professor Elias Feijó, a quem eu enlaço os devidos respeitos, deu-me um prazo, que necessariamente tinha que concluir o trabalho até as primeiras semanas de janeiro e começar as devidas correções, faríamos as revisões para que tudo estivesse alinhado até a data estimada para apresentação. Então, contando categoricamente, até os finais de janeiro e a fase da defesa, concluímos por ali quatro a cinco meses que levou essa minha pesquisa maravilhosa.

No âmbito das dificuldades, as primeiras foram principalmente relativas às referências bibliográficas. Tudo porque as referências que eu encontrava falavam simplesmente da variante noutros aspetos, meramente na escrita e da didática, não na forma dialetal. Daí que de várias bibliografias consultadas, não encontrava assuntos que falavam da variante linguística, ou seja, daquilo que era a intercompreensão linguística. E depois, outra dificuldade foi a questão metodológica. É a primeira vez que trabalho com a técnica de grupo de discussão. Foi uma dor de cabeça, quase chorei. O professor Elias disse-me, Olha, Eliseu, só entrevista não será suficiente para dar o conteúdo suficiente que o trabalho necessita, com a finalidade de alcançar do desejado com esta pesquisa.

Daí então que ele me deu essa responsabilidade de pegar o grupo de discussão como técnica para o estudo, e foi muito difícil encontrar e trabalhar. Assim sendo, no decurso destas situações as dificuldades foram nas questões das referências bibliográficas, na questão da intercompreensão da língua, e depois a questão do próprio grupo focal. Foi muito difícil ter como encontrar referências que de certa forma abonassem essa parte do meu trabalho e trabalhar com a mesma técnica, porque também desconhecia como trabalhar com o grupo focal. Foi um aprendizado novo, tive muita dificuldade. Mas, consegui, fruto de pesquisas e leituras.

E depois foi na questão da recolha das entrevistas, tive uma grande tristeza, tudo porque eu já estava mesmo a ficar desanimado, tínhamos que recolher entrevistas de estudantes lusófonos, e também entrevistas de estudantes galegos, que já interagiram com estudantes ou pessoas de língua portuguesa. Enviamos várias vezes correio ao nível do centro de mobilidade, pedindo entrevistas. A princípio, alguns apresentavam disponibilidade, mas quando descobriram que era uma pesquisa que estava a ser feita por mim, acredito que, sem querer fazer julgamentos, nada a ver com o racismo, os colegas simplesmente recusavam a dar a entrevista. Até mesmo alguns de nacionalidade portuguesa e brasileira.

Os colegas africanos mostraram-se sempre disponíveis porque já interagimos, já havíamos trocado em algum momento algumas impressões, alguns conseguiram de certa forma dar as entrevistas. Por outro lado, para conseguir as entrevistas dos estudantes galegos, aí foi a grande dor de cabeça, tudo porque muitos deles apresentavam desculpas, alegando que tinham que ir de férias, razão pela qual só conseguimos o número de entrevistas dos colegas galegos que o trabalho apresenta. Muitos deles simplesmente refutaram em não dar a entrevista, mesmo explicando a confidencialidade que o trabalho apresentava, não conseguia depoimento suficiente. E depois foi mesmo no momento da realização do grupo focal, a informação foi dada com muita antecedência, mas no dia da realização do próprio grupo focal, 13 horas, momento exato para a realização, comecei a receber mensagens dos colegas dizendo que já não iriam aparecer, aquilo deixou-me totalmente cabisbaixo, deixando-me sem esperança, tudo porque já era o mês de dezembro, e era a época das quadras festivas, e todos nós sabemos que nessa altura a cidade toda fica vazia, os estudantes vão todos de férias. E eu passei todo dezembro, sem comemorar o Natal, a trabalhar de ferro e fogo dia e noite, trancado no quarto, simplesmente ia à biblioteca pegar livros e fazer algumas pesquisas, não gozei automaticamente o Natal, tudo porque tinha o prazo de janeiro para apresentar todo o tratamento dado às entrevistas e ao grupo focal, bem como fazer a interpretação dos dados. Essas foram as grandes dificuldades que eu necessariamente tive com o meu trabalho.

O entrevistado num outro cenário, com os candongueiros da sua Nguimbe.

No teu trabalho falas sobre as variantes da escrita em língua portuguesa. Que opinas quanto ao tema do Acordo Ortográfico? Achas bom estabelecer uma variante comum para todos os países de língua portuguesa? Que pensas da norma proposta pelo acordo?

–Eu acredito que o tema do Acordo Ortográfico (AO), proclamado necessariamente na década de 1990, é um acordo que visa unificar a questão da língua, onde os países lusófonos tiveram o propósito de instituir uma ordem oficial, ortográfica e geral, para a língua que todos nós falamos.

Acredito que neste ponto de caris geral é uma questão que os países precisam perceber, por um lado, que cada um poderia manter a sua variante desde que a mesma seja compreensível. Para dar suporte a este meu argumento, cito aqui Paulista (apresentado no meu trabalho) que diz que as variantes são fenómenos globais. Todas as línguas têm as suas variantes, porque há indivíduos que falam. Daí então que este fenómeno está presente em qualquer parte do mundo. Desde que haja língua, há esse fenómeno de que diversas comunidades apresentam as suas distintas formas de falar. Entretanto, ao estabelecer uma variante para todos os países de língua portuguesa, por um lado, retiraria alguns pendores que as línguas têm, sobretudo o pendor de identidade cultural e histórica. Ao estabelecer uma única variante ficam de lado certos elementos essenciais na questão da língua, ou seja, com uma única variante linguística estaremos de certa forma a desfavorecer esses elementos que as línguas possuem.

Ainda que a unificação seja este elemento de identidade e de promoção internacional da língua, eu acredito que devem de certa forma ter aceitação outras variantes existentes. O mesmo acontece com a língua inglesa. Como se vê, existe a variante britânica e existe a variante americana. Um ou outro adota uma variante, adota seu estilo, desde que a mesma não fuja daquilo que são os critérios gerais da compreensão. Porque, afinal de contas, as variantes são essas diversas maneiras, tal como diz Tarralho, de falarmos uma coisa, mas com as suas distintas maneiras. Deste modo, a questão do acordo ortográfico deve favorecer as variantes que a língua portuguesa tem. Desde que não fuja o padrão geral da compreensão da língua, desde que quando Eliseu fala arroz, o indivíduo de nacionalidade portuguesa entende arroz e o brasileiro entende arroz. Acredito que deve, de certa forma, ter a sua aceitação de modo geral.

A maioria dos informantes responderam que as variantes do português mais fáceis de compreender são as de Portugal e do Brasil, mas, qual é do teu ponto de vista a variante africana mais fácil de compreender?

–A variante angolana, dentro da comunidade lusófona africana, é a mais compreensível e acessível. Por conta do cuidado que há no emprego dos termos, o seu pendor gramatical que é muito usado nas pronúncias das palavras, etc… Entre os africanos é a variante mais fácil de compreender.

Pude comprovar isto ao interagir com os colegas de Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, denotava-se e denota-se mesmo que há uma fácil compreensão dos angolanos, nos outros há uma mistura do português com o crioulo (cabo-verdianos e são-tomenses) e nos outros (moçambicanos), falta de pronúncia do “r” que parece tornar a palavra errada. No decurso do contato, os mesmos alegavam que os angolanos falam bem o português e é um português que facilmente se compreende. Por essa razão é que cheguei a afirmar isto, fruto também dos depoimentos, daquilo que foi recolhido a nível da própria investigação, que a variante africana angolana é a que de certa forma melhor se compreende.

Uma das questões do teu TFG gira em torno da quantidade de Línguas Portuguesas (se há uma língua portuguesa com diferentes variantes ou se há várias línguas portuguesas). Quando achas que uma variante passa a ser uma língua? Que características deve possuir para ti uma variante ou uma língua para ser considerada como tal?

–Há um termo muito presente na problemática da afirmação das variantes como Língua, que tem a ver com a inteligibilidade que as línguas possuem, ou que as variantes possuem. Daí, então, eu acredito que para que uma variante possa ser considerada como uma Língua, parte da sua inteligibilidade e, por outro lado, tem a ver também com as questões políticas institucionais, ou seja, quando esta mesma variante é afirmada a nível das suas instituições, quando ela se torna padronizada por parte do próprio Estado, é aí então que, com base nas suas características gerais, nós podemos encontrar, desde que elas tenham uma ordem gramatical, a questão da própria sintaxe, a fonética, o próprio vocabulário, desde que haja comunidades que falam esta mesma variante, tenham noção da sua presença entre os seus falantes. Logo, estes elementos são características essenciais para considerar a variante como uma língua.

Qual consideras que é o primeiro e mais importante passo que deve acontecer na Galiza para estreitar as relações com os demais países da lusofonia?

–Neste ponto, nas notas conclusivas do meu trabalho, apresento algumas sugestões ou passos a serem tomados para estreitar e levar o conhecimento da Galiza para outras comunidades lusófonas. Assim, alguns passos até já têm sido dados, que é precisamente no plano educacional.

O Eliseu conseguiu conhecer que a Galiza é realmente o berço ou a essência da língua portuguesa por meio deste intercâmbio oferecido pelo Erasmus. Outro passo nessas relações seria a representação de embaixadores em cada país lusófono, este teria a responsabilidade de difundir e expandir a Galiza dentro das comunidades, porque nos países africanos pouco se conhece da Galiza. Um caso prático é nos planos curriculares de certos países de língua portuguesa, raramente aparecem questões ligadas à Galiza como sendo o centro da língua portuguesa, se há, é de uma de forma muito superficial. Então, eu acredito que fora o âmbito académico, que já tem sido boa, graças a essa mobilidade de Erasmus que, de certa forma, tem levado ao conhecimento da própria língua além fronteira poderíamos estender mais com representantes nestes fóruns, dando seminários, partilhando experiências, estando presente no âmbito político, entre outros.

Lá nas nossas aulas de Relações Galiza-Lusofonia com o professor Carlos Quiroga falávamos muito sobre certos ensaios que, de certa forma, motivaram aproximar a Galiza de outros meios lusófonos, aqui a falar da Lei Paz Andrade, que, de certa forma, deve favorecer a própria fluência do Galego por via do Português na Lusofonia, porque por outras bandas se tem a noção de que a Galiza por estar na Espanha automaticamente só fala espanhol. Esta é a ideia que muitos países lusófonos, muitos estudantes lusófonos têm da Galiza. Mas quando chegam no próprio território, percebe-se que realmente não se fala espanhol simplesmente. Fala-se, neste caso, o galego que tem essa grande semelhança com o português, que tem essa grande proximidade do que todos nós falamos e que, no fundo, no plano geral, é o português na sua verdadeira essência.

Há portugueses que consideram como uma ameaça à sua variedade a expansão da variante brasileira. O que opinas sobre isso? Considera-lo uma ameaça?

–Eu não considero ameaça. Aliás, isso torna mais enriquecedora a língua que todos nós falamos. Imagine, nos países africanos, principalmente em Angola, nós consumimos tipicamente mais do português de Portugal, razão pela qual é que há essa padronização no falar e escrever, o cuidado no falar da própria língua portuguesa. Mas, ainda assim, consumimos também grande parte do que é o português brasileiro.

Então, eu acredito que Portugal não deve se sentir ameaçado. Tudo porque, afinal, é a língua presente em muitos lugares, em muitas partes do mundo. E, um brasileiro falando em português deve ser motivo de honra, deve ser motivo de prestígio. Afinal de contas, falamos de uma língua que nos identifica a todos nós. É uma língua que está presente em todos nós.

Os brasileiros têm feito muito para expansão da nossa língua, isto é notório, sobretudo, no mundo cinematográfico que arrasta milhares de pessoas em suas edições em filmes, novelas, bonecos e séries em português, nos conteúdos didáticos e literários disponíveis na internet. Português deve aproveitar esta grande oportunidade que o Brasil oferece.

Por que achas que os falantes de português entendem mal os galegos?

–Devido, primeiramente, ao desconhecimento do galego por parte de certos países lusófonos, e, segundo devido a grande influência do espanhol no galego, sendo muito mais fácil perceber o espanhol do que o galego. Outro aspeto a considerar é a pouca literatura galega presente em certos países lusófonos, isto dificulta conhecer a língua que deu origem ao português. Enquanto que na Galiza estão presentes no seio académico as Literaturas Africanas, está o contacto constante com as pessoas falantes de português, o caso contrário não acontece, nos países lusófonos, sobretudo africanos, falta conhecimento e contacto com os falantes de galego, com a sua literatura, cultura, e até realidade.

Agradeço ao Eliseu o seu tempo e as afáveis e pormenorizadas respostas. Sempre é um gosto trocar ideias e experiências entre mundos aparentemente tão distantes, mas de repente aproximados de modo natural por via desta língua que, de um modo ou doutro, continua funcionando como interface direta e imediata. Por outro lado, o seu trabalho, para além de interessante investigação linguística, é uma sugestiva mostra de interculturalidade. Desta pesquisa podemos tirar reflexões sobre a importância do elo linguístico como elemento identitário e afetivo, assim como obter uma visão da situação social e linguística galega desde fora.

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