Discurso inaugural da Cátedra oficial Carvalho Calero, (CCC)
Esta Cátedra vem reparar certa anomalia –tarde, pouco e quase sem tempo para que o trabalho do homem que quer honrar venha a render. No entanto, o Reitor e a sua equipa, o meu Decano e meu Vice-reitor, todo o conjunto reduzido que a promove, merece bem para a posteridade o qualificativo “Magnífico”, que protocolarmente tanto se trivializa. Já se verá, no entanto, se escolheram igual de bem no diretor. Eles já receberam pola promoção algum desacato. Eu conheço a afrenta desde o século passado. Arraigar esta planta já passou por desalentos e vai ter diferenciais dificuldades. As esferas do poder que com voracidade descarrilaram o rumo prometido para esta Língua e País, no primeiro Estatuto (com mão de Carvalho), no primeiro Galeguismo (com serviço de Carvalho), e depois, na utopia democrática de convívio pacífico em estado plural, ao tempo aberta no nosso caso para crescer com mais afetivo e efetivo entendimento, nessa quinta parte do planeta, que leva na cabeça instalado o mesmo sistema operativo… continuam em volta.
Não vou cantar/contar percurso e mérito de RCC, pois temos padrinho de luxo para tal, o Professor Martinho Montero Santalha, que a seguir fará rápido esboço da sua personalidade e vida. Mas não quero privar-me de mais algo dizer sobre o gigante e o seu pecado, que determinam o esplendor e desafio que se abre para uma Cátedra que deve ser coerente com tanto Talento, Escrita e Serviço. Ninguém igual e ninguém, portanto, tão injustamente afastado, preterido, apagado, quando o autoritarismo supostamente tinha acabado.
O pecado de Carvalho foi a coerência, lealdade, conformidade ao galeguismo e a uma Universidade que se pretendeu cedo galega. Foi trabalhar, atualizar e aplicar, em versão compatível a esse mundo que leva na cabeça instalado o mesmo sistema operativo (Língua) à variedade de fala que estou agora usando. A proposta carvalhosa segue AÍ e IA já lhe deu a razão. O Galego vive no Galego-português, morre como Galego-Castelhano. A escolha última é a das esferas do poder submissas ao tardofranquismo, ainda campante, que rumaram na lógica da extinção deste vínculo molesto. E plantaram eucalipto rápido. Mas esta Cátedra aposta por um futuro que, se houver, só pode ser carvalhoso. Nisso vamos investir ao revitalizar Obra e aplicar Pensamento e Propostas de D Ricardo. Plantar carvalho, com honestidade democrática. Se nos deixam. Porque sabemos ser desafio difícil.
Há mais de 30 anos que Elvira Souto observou –em depoimento que a própria autora qualificava de viagem emocionada pola escrita limpa e sensível de D. Ricardo– como o caso de Carvalho Calero teria paralelos com práticas políticas antiquíssimas no berço do democratismo. Ao tempo que 26 séculos atrás, quando em Atenas se inventa este sistema, aparentemente ótimo e ainda vigorante, inventam a punição do Ostracismo, instituição que, como o rito ancestral do pharmakós, regrava o afastamento do grupo dos talentos que se tivessem elevado excessivamente sobre a média, pois supunham perigo para a estabilidade da ordem social.
<Mandar fora da sala de aula o espertinho…? Aquele que aponta mais alto e acerta melhor no alvo…? Triste pedagogia a de exaltar parvos. Elvira mencionava René Girard, que já teria afirmado que o Poder, poderes, continuam encontrando sempre formas mitigadas do ostracismo>
Carvalho apontou mais alto e melhor do que ninguém e sustentou o arco com pulso firme, paciente, sacrificial. Nom fugiu com Castelao que o tinha escolhido. Por pouco foi fuzilado, passou calvário no campo de concentração e à saída. Mas conservou todas as convicções. E trabalhou por elas mesmo no ostracismo em que o mundo domesticado em que ficou o sumiu. Lúcido do preço que pagava, também cônscio do valor do seu legado. Que continua funcional. A Cátedra que hoje inauguramos pretende assoprar nesses rescaldos com os alentos que consigamos reunir. Na mesma lucidez e apesar do mundo atroz que temos em volta. Mas com ilusão.
<…e aqui entraria bem a balada dos Scorpios, Wind of change…>
Alvo central será a investigação, por imperativo da sua estrutura universitária, com divulgação e promoção nacional e internacional, da obra, pensamento e valores desse senhor posto na fronteira em tempos democráticos. As pessoas que hoje praticamos o seu legado continuamos sendo estrangeirados ou simplesmente ignorados nas “palhas primitivas”, e se recebemos algum espaço e ar fora de fronteiras até de vez em quando nos mandam recado por abrirmos a boca. Esta Cátedra é para abrir as bocas também na casa. Arejar a casa por dentro e para fora.
Termos problemas não será nada admirável, à vista do acontecido com o nosso referente e Grande Construtor, que ainda –incompreensível e particularmente na “casa”– continua causando incomodo, inclusive nos que pretenderam apropriar-se do legado galeguista que ele sustentou, pois praticam ostracismo quando exercem de mandachuvas. Deformando, escondendo, censurando. Carvalho ainda incomoda por apontar o dedo à chaga central da nossa identidade, o entendimento do idioma. E nisso vê-se fielmente no espelho de Castelao. A primeira publicação desta Cátedra reclama este legado de modo elementar. E quero pôr relevo nesse livrinho com 4 básicos artigos de imprensa, que vos damos de presente e colocamos em PDF na nossa web.
Carvalho escreve que um galeguista indiferente ao próprio idioma nom é concebível em Castelao, e que a doutrina galeguista é inseparável neste do conceito que sustenta acerca do galego. Eis o cerne e programa básico, eis a coincidência simples de Carvalho, e o problema. Só que D Ricardo levou –com talento, honesto estudo e longa experiência sangrada e misturada– a profundidades nunca dantes navegadas na Galiza este programa. Carvalho está em Castelao porque é o big-bang de Castelao e, não nos enganemos, se existe um ente que ainda se chame Galiza, sempre e não “algunas veces”, é por obra e graça de vidas e personalidades como a de D Ricardo, que no seu mapeamento persistente o expandiram. E quando a nossa matéria cósmica característica –idioma– esfria, definha e fenece, os censores do maior científico e cultor que os tempos viram, em conhecimento, estudo e até entranhamento no máximo sacrifício, arvoram-se em pedir responsabilidades a quem não lhe concede mais recursos para acabar de exterminá-lo. Como é possível que se pretenda continuar a intoxicar assim a inteligência?
O Sr. Reitor Magnífico, em inaugurações e eventos afins às Cátedras, citou Castelao na aspiração de a Universidade de Santiago se tornar cérebro da Galiza. Consagrar em 2025 uma cátedra comemorativa a um máximo construtor desta universidade, da prática e dos estudos do idioma próprio, e até da mesma Galiza, sabe a reparação de anomalia, e não sendo cedo continua a ser ousado. Inusitadamente ousado.
<daí que Magnífico me pareça mais que protocolar, e alargue
ao Sr meu decano e camarada, ao Sr meu vice-reitor e igual alinhado>
Bem achem os Poderes estes que parecem acreditar nesta cátedra para o que em essência pode ser, sem pretender branqueamentos de uma figura já icónica. Todos eles fiquem no mapa da nossa melhor história reparadora de anomalias, e até a resistência marginalizada que elevou Carvalho Calero a uma épica simbólica de oportunidades perdidas se volte com esperança para este gesto.
Será incumbência da Cátedra fomentar o estudo da literatura galega, em continuação das orientações do seu patrocinador, potenciar o interesse pela leitura e escrita em galego, dar apoio à nova criação… Mas tudo isto que está ótimo quando é palha tipificada para eventos inaugurativos, não será tão formidável para os poderes, porque perpetuar a memória do professor, escritor e pensador, colaborando na divulgação da sua obra, promovendo o estudo da mesma, na Galiza, estado espanhol, Lusofonia e no estrangeiro em geral, terá que vencer obstáculos bem maiores do que instituições mais dotadas de recursos, pessoal e simpatias.
<…acompanhe-se na web, https://catedracarvalhocalero.gal/…>
Queremos estudar a biblioteca, arquivo e legado bibliográfico carvalhano instalados no Parlamento Galego, reunir e sempre que possível ampliar a bibliografia sobre o autor.
Queremos promover a realização de conferências, ciclos de estudo ou quaisquer outras manifestações adequadas aos fins em vista, estabelecendo prémios à pesquisa e à nova criação.
Queremos criar vínculos e atividades de promoção local na geografia vital do autor, e particularmente no ponto em que está sediada a Cátedra onde completou/culminou o percurso biográfico o seu patrocinador.
Queremos dar apoio a atividades, associações e organizações culturais, assumidamente de teor reintegracionista, situadas na área onde está instalada a sede, que orientem o seu dinamismo segundo os postulados do patrocinador.
Queremos promover o associacionismo galego da Escrita em inspiração carvalhosa paralela à da AGLP, pois integrar-nos na APE (como individualmente durante poucos anos e a pedido deles experimentamos), segundo J. L. Rodríguez também D Ricardo teria proposto, é inoperante.
E queremos tanto que este plural precário e de cortesia é consciente de que a tarefa resulta desbordante para o que lhe resta de vida. Cabe-me apenas o empurrão inicial. Se este país não necessita de Carvalho será talvez porque já esteja a ponto de deixar de haver, mas não será por falta desta tentativa, um esforço no que émulos daquele que queremos honrar estamos dispostos a sangrar.
Naquele primeiro estatuto de Autonomia que Carvalho redigiu com Lois Tobio em 1936, na sua História da Literatura Galega, na sua ingente obra sobre o idioma e com o idioma, como criador e artista, está o Golpe d’Asa desta Galiza suicida. Tomemos esse impulso, aproveitemos o legado do Carvalho big-bang, do Carvalho red-bull, não podemos dar-nos ao luxo de um desperdício de talento, de um legado de Inteligência Natural, tão elevado.
Reitero agradecimento às autoridades, académicas e políticas, Magnífico Reitor, Vice-Reitor, Decano, e agradeço igualmente a presença e apoio da família de Ricardo Carvalho Calero aqui presente. Dos representantes do Concelho do Ferrol, José Antonio Ponte Far, do Festival Correntes d’Escritas da Póvoa de Varzim, Manuela Ribeiro e Sílvio Fernandes. Autoridades, outras, não disparem na pianista, Íria Iglésias hoje, e por extenso em quem nisto se embarca, pois já outras, outras e outras dispararam bastante no autor da partitura. Somos os pacifistas,/ que andamos dando guerra, do poema de Dom Ricardo, e para nós Nom Existe a Morte, outro que em breve cantam Madalena Gamalho e MJ.
Obrigado.
Este discurso inaugural foi proferido no primeiro ato público da Cátedra oficial Carvalho Calero, (CCC) realizado no 23 de setembro de 2025 no Paraninfo da Universidade de Santiago. Assista aqui ao Discurso de inauguraçom da Cátedra Carvalho Calero a cargo do seu diretor, o prof. Carlos Quiroga.