A revoluçom do 13 de outubro

Outubro 12, 2025 // Carlos Callón

Há datas que, embora aparentem discretas, carregam em si o peso dumha revoluçom silenciosa. O 13 de outubro de 1965 é umha dessas. Nesse dia, pola primeira vez em quatro séculos e meio de história, a Universidade de Santiago de Compostela escutou, em sala de aula, o galego como língua de ensino oficial. Nom como expressom voluntarista de algum professor –como já acontecera antes de 1936, com Cotarelo Valledor falando de Língua e Literatura ou Porteiro Garea como docente de Direito–, mas como disciplina reconhecida, ainda que tímida, no currículo académico.

Mas o caminho até esse instante nom começou nos corredores universitários. Já em 1910, o Congresso dos Deputados aprovava a criaçom dumha cátedra de Catalám em Barcelona e outra de Galego-português… em Madrid. A decisom, tomada sob o pretexto de promover o estudo científico das “civilizaciones regionales” para “la hegemonía de las letras castellanas”, escondia um gesto de desprezo e clientelismo.

A indignaçom no país foi imediata. Estudantes em Compostela entrárom em greve, jornais clamárom contra o absurdo de estudar o galego longe, e até o reitor se espantava com a ideia de ensinar em Madrid umha língua da qual “se mofan hasta los que se creen con cultura”. A manifestaçom do 5 de dezembro de 1910, que tentou sufocar o Governo Civil, foi um dos primeiros grandes gestos públicos em defesa do galego como língua digna de ensino. Um alto cargo da administraçom educativa contestava em público os protestos: a fala galega era “repulsiva” e ensiná-la na Galiza seria “un error lamentable”, “un crimen de lesa patria española”. Mesmo lhe parecia que Madrid podia estar perto de mais e que, se houvesse que criá-la, essa cátedra estaria melhor em Bolonha.

Embora constituída por lei, a cátedra existiu só simbolicamente, entre esquecimentos e silêncios. Os tempos de esperança da II República espanhola tampouco chegárom a concretizar o reconhecimento oficial do galego e, como é sabido, a ditadura franquista significou um novo momento de feroz repressom.

No ano 1953, algumhas destacadas personalidades, entre as quais figurava o arcebispo de Santiago, pedírom publicamente que se restituísse a cátedra de Galego em Madrid. Dous anos depois, anunciou-se a possibilidade de estudo, exclusivamente na capital do Estado, da “Filología Galaica”. Foi um movimento propagandístico que nom significava nada, como resposta às denúncias internacionais sobre a repressom da nossa língua que se apresentaram na UNESCO.

Aconteceu mais tarde, só em 1962, que se criou a seçom de Filologia Românica na Universidade de Santiago de Compostela, prevendo umha disciplina optativa no quarto ano e obrigatória no quinto. E foi ainda no curso de 1965/66 que essa promessa se tornou realidade. O nome que encabeçou a estreia foi o de Ricardo Carvalho Calero, figura maior da nossa cultura, cuja presença naquele dia inaugural, 13 de outubro, simboliza o início dumha nova era.

Mas esse começo foi marcado pola precariedade, e nom só porque a língua continuasse a ser severamente reprimida no resto da universidade e das artérias fundamentais da naçom. A categoria profissional era frágil e o salário, umha afronta. O próprio decano da Faculdade, Abelardo Moralejo Laso, reconhecia com rubor a miséria dos honorários: “Casi no me atrevía a proponerle a V. el encargo de dicha materia por razones económicas… me da vergüenza decirle que la remuneración… son 8.400 pesetas anuales… Claro está que aun así las molestias para V. serían muchas y grandes…” Era preciso viajar, pernoitar, sacrificar tempo e energia por umha causa que, institucionalmente, ainda nom encontrava respaldo. E mesmo assim, Carvalho Calero aceitou. Porque sabia que o galego merecia estar ali, entre os saberes universitários, como língua viva, digna, culta.

Em 1968, ele próprio denunciaria a permanência da fraqueza: “Moitos galegos creen que esiste na Universidade unha cadeira dotada e provista. Non hai tal cousa… Só procede solicitar e outer a creación, dotación e provisión dunha praza de Profesor Agregado, albo que non foi atinxido aínda tampouco”.

A luta continuava. E só em 1972, dez anos após a criaçom da Filologia Românica, sete anos depois da primeira aula e mais de seis décadas após os protestos de 1910, a Galiza teria finalmente umha cátedra de Galego-português. O home que a ocupou? O mesmo que, com estoicismo e paixom, abrira as primeiras portas da sala de aulas: Ricardo Carvalho Calero.

Hoje, sessenta outubros depois, o galego é matéria docente e com linhas própias de investigaçom, mas os estudos de galego e português estám separados contra natura. Aliás, o galego, como língua veicular nas universidades da Galiza, mal vive ainda sob discriminaçom e injustiça, quase como se fosse oficial só para os papéis administrativos mas nom para lecionar aulas. Há carreiras essenciais para a vida social –como Medicina ou Enfermagem– onde, segundo os dados oficiais, a presença do galego é a mesma que em outubro do 65: quase nula. Latejam muitas revoluçons, silenciosas ou nom, que ainda temos de fazer. Porque o galego, mesmo com estatuto oficial, continua a ser tratado como língua de segunda. E a universidade, que deveria ser farol, ainda o mantém na sombra.

Continuemos os passos de Ricardo Carvalho Calero.

Carlos Callón

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